Autores de quadrinhos: rumo a um período de extinção massiva?

19/12/2010 § 10 Comentários

 

(Traduzido do post de Fabien Vehlmann, roteirista francês de numerosos títulos de quadrinhos como “Spirou”, “Le Marquis d’Anaon”, “Seuls”, “Green Manor”, do dia 26.10.2010)

“Este é um post que será longo e pessimista nesta semana, e já peço aos internautas mais sensíveis a ir ler outra coisa e voltar aqui mais tarde, me dando o tempo de passar uns dias num spa, um curso de kick-boxing ou alguma outra coisa relaxante.

Tive de fato muitas discussões com autores, donos de livrarias e editores durante os festivais e viagens que fiz para promover “Spirou”, e posso dizer que o que pude constatar dessas conversas me deprimiu bastante.

Para encurtar a história, o movimento global da indústria dos quadrinhos (N.T. na França) se encaminha, há cerca de 3 ou 4 anos, para uma regressão acelerada e massiva dos pagamentos adiantados sobre os direitos autorais.

Antes de prosseguir, explico resumidamente para os neófitos e curiosos em que consiste esse sistema de remuneração de autores (já sei que devem estar impacientes, seus medrosos).
O “pagamento adiantado sobre os direitos autorais” é uma remuneração antecipada feita aos autores do álbum pelo seu editor com o propósito de permitir aos mesmos estabilidade financeira para produzir a obra. Essa soma será reembolsada pelo editor na forma do lucro das primeiras vendas do álbum.

(Sem entrar em detalhes, e deixando de lado a parte do roteirista e do colorista, podemos estimar que um desenhista poderia até este momento esperar receber cerca de 12.000 euros por um álbum – estimativa apenas aproximada, pois esse valor varia muito de acordo com os autores -, ou seja, apenas 1.000 euros por mês uma vez que o desenhista leva cerca de um ano para finalizar o desenho de um álbum. Não é nenhuma maravilha, mas ainda permite ao artista de se consagrar em tempo integral à sua obra.)

O álbum é em seguida colocado à venda nas livrarias, e o lucro de suas vendas permite recuperar pouco a pouco o investimento feito pelo editor na forma de pagamento adiantado sobre os direitos autorais: a margem de reembolso varia consideravelmente de acordo com o preço do álbum, o tamanho do editor e outras variáveis, mas podemos fixá-la aproximadamente em torno de 15.000 álbuns vendidos. Assim, somente após a venda desse (bastante hipotético) número de primeiros exemplares vendidos que os autores começam a ganhar a sua parte em direitos autorais, ou seja, em média cerca de 8% sobre o preço de capa de cada exemplar (enquanto que o editor, diga-se de passagem, terá começado a ter lucro bem antes disso).

Contudo, para dar a César o que é de César, há que se ressaltar que, se as vendas não atingem a cifra de 15.000 exemplares, ao menos o editor não exige que os autores lhe devolvam a soma que lhes havia sido dada em adiantamento (ufa!).

Por outro lado, se esse tipo de ‘fracasso de vendas’ ocorre com freqüência, é de se suspeitar que o editor não tenha mais interesse em trabalhar novamente com esses mesmos autores… pois não há uma organização de proteção como a Assedic (N.T. Associação pelo Emprego na Indústria e no Comércio, em francês) para os autores de quadrinhos e ilustradores. Um autor que tem seus projetos recusados sistematicamente pelos editores não ganha absolutamente nada. Gulp!

Em suma, essa constatação geral já não era nenhuma maravilha, mais eis que a situação se degrada ainda mais … Já há alguns anos, a média de vendas de um novo título passaram de fato de 8.000 a 5.000 exemplares (quando não 3.000). Ou seja, elas diminuem visivelmente.
E de quem é a culpa?

Em primeiro lugar, da produção excessiva de títulos (mais de 4.000 novos títulos por ano, contra apenas 500 15 anos atrás), mas também da crise financeira recente, que atinge a todos (inclusive os consumidores de quadrinhos). A isso se acrescenta o perigo constante da mídia digital, que faz com que todos os atores envolvidos na produção de livros temam uma reviravolta nos modos de produção e comercialização dos quadrinhos nos próximos anos, e que tende a fazer cada um recuar para sua trincheira. Todos se perguntam se sua categoria não será a próxima a desaparecer…

Resultado: os editores se dão cada vez menos margem de manobra para arriscar-se a lançar novatos no mercado, escolhendo-os muitas vezes mais pelo seu “potencial comercial imediato” do que pelo sua contribuição artística de longo prazo, e/ou propondo-lhes remuneração global pela obra extremamente baixa.

Vemos assim surgir já há algum tempo entre os grandes editores proposições de 10.000 euros por toda a produção da obra (roteiro, desenhos, cores) por álbuns de 46 páginas ou mesmo 100 páginas, caindo por vezes até o valor de 5.000 euros.

Mas o fundo do poço é atingido quando se tratar de propor aos quadrinhistas blogueiros uma soma global de 3.000 euros pelo álbum completo (cores e roteiro inclusos), ainda que o risco de se lançar no mercado é assumido inteiramente por eles! Pois não foram eles que suaram a testa para produzir os desenhos e ainda por cima encontrar um público cativo?

O proletariado maltrapilho dos quadrinhos já está portanto em extinção, e pode ser que não seja algo bom.

Claro que se espera, até certo ponto, ganhar remunerações modestas quando se é principiante no mercado…

… mas essa redução da remuneração atinge também os numerosos profissionais consagrados e veteranos. Muitos deles me disseram ter recentemente recebido propostas de preço de página inferiores ao que costumavam receber… quando eles mesmos eram iniciantes (quando se dizia que assim era por causa do ‘mercado difícil’)! A degradação de nossas condições profissionais parece assim global e massiva.

Isso tudo me dá a forte e desagradável impressão de que a indústria dos quadrinhos (N.T. na França) decai perigosamente para os usos e costumes da indústria literária, em que, como se sabe, os escritores jamais são remunerados decentemente a ponto de se permitir viver de sua arte. Afinal, se funciona assim para o livro “tradicional”, por que não impor esse molde aos quadrinhos também?

Porém…

… estou convencido de que esse modo de produção não funcionará para os quadrinhos.
A maioria dos autores de quadrinhos não têm um segundo emprego para pagar as contas simplesmente por que é impossível!! Os desenhistas, particularmente, não conseguem produzir 46 páginas de qualidade em um ano trabalhando 40 horas por semana!

Esse modelo econômico só será viável se os autores lançarem apenas um álbum a cada 4 ou 5 anos (já se pode dizer adeus às séries), ou se o estilo de desenho se torna cada vez mais “despojado” ou “descuidado”, o que nem todos os desenhistas conseguirão fazer com o mesmo talento e sucesso que um Joann Sfar.

Mas a boa notícia é que, como estou convencido de que esse formato não funcionará para os quadrinhos, ele também terá vida curta, uma vez que nossos amados leitores exigirão cedo ou tarde obras em quadrinhos feitas “à moda antiga” (ainda que sempre haja o nicho do gênero de quadrinhos mais “despojados” presente no mercado).

Mas “vida curta”, na escala humana, pode mesmo significar muitos anos…
Meu medo, atualmente, é que toda uma geração de jovens autores seja sacrificada, e que os quadrinhos franco-belgas tenham suas asas cortadas durante 10 ou 15 anos mesmo possuindo todo o know-how único no mundo, desenvolvido até aqui e possibilitado justamente pela remuneração apropriada aos autores.

A outra boa notícia é que posso estar redondamente enganado na minha análise.

Espero desde já que nossos caros editores me assegurem que a redução da remuneração adiantada sobre os direitos autorais (e seu possível desaparecimento) não é iminente (“Hahah, claro que não!”) e que é bobagem me preocupar deste modo (“Que estressado, esse Vehlmann!”)

Enfim, uma última possibilidade: esse post condiz absolutamente com o que se percebe e ocorre no momento, mas será decididamente obsoleto daqui a poucos anos pois as mídias digitais terão mudado completamente a situação e nada mais erá como antes.

Voltemos a conversar em 5 anos.”

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§ 10 Respostas para Autores de quadrinhos: rumo a um período de extinção massiva?

  • aristidenix disse:

    voilà tout est dit , il n'y a rien a rajouter… c'est pour cette raison et cette raison seulement que je ne travaillerais plus pour une maison d'édition (trop de boulot pour le salaire) et j'ai bien peur qu'à l'avenir rien ne change…je sais que tu voulais t'aventurer dans le travail numérique "photoshop" si je peux te conseiller, mais tu y as sans doute déjà pensé, commence par de petites choses, je m'explique, donc par exemple tu reprends une de tes illu traditionnelle que tu scan et tu ajoutes des petits détails , comme par exemple, éclairage, chevelure, modifier quelques couleurs…etc… pour te familiariser avec la technique photoshop et tout les différents brush que celui-ci te propose … patience au début …alors , salut , passes de bonnes fêtes, portes-toi bien … à l'an prochain…

  • Ana Luiza Koehler disse:

    Bah oui, c'est trop de boulot pour des rémunerations de moins en moins raisonnables… Me j'y tiens quand même car j'adore ça. Bref, il faut quand même en parler pour qu'on puisse commencer à réagir, n'est-ce pas?Et merci pour les conseils sur la peinture numérique, tu as tout à fait raison! Je m'impatiente, et puis je n'en veux plus, c'est la défaite! *rs* Mais tu as bien fait de me rappeler qu'il faut avoir de la patience et apprendre petit à petit. Voilà le prof en toi! :) P.S. Tu peux quand même faire un vidéo speed painting de ton travail sur Photoshop, ça serait super!

  • Carlos Brandino disse:

    Excelente, materia Ana. Caiu o deslumbre do que muitos falavam do mercado europeu e principalmente da Belgica. Gostei desta materia realista de como é lá dentro.Tambem, gostaria de saber se posso copiar esta materia no meu blog/site – http://www.brandino.com.br – com seus creditos e link dos seus trabalhos?E meus parabens pelos seu trabalho. Eles sao muito bons. Ja salvei nos meus favoritos e visitarei aqui com mais frequencia.

  • Ana Luiza Koehler disse:

    Oi Carlos! Que bom que gostaste, acho que é dever de cada um divulgar essas informações pois temos de saber no que estamos nos metendo. Tens minha autorização para publicar esse conteúdo no teu blog com os créditos e divulgar mais esse conhecimento. E parabéns pelo teu trabalho, tens um lindo traço! :)

  • Carlos Brandino disse:

    Obrigado Ana.A algum tempo fiz uma materia no meu blog (ta la ainda) sobre parceria nos quadrinhos e "dia dos quadrinhos nacionais, sem quadrinhos", na qual a panini foi o centro das atençoes.Deu o que falar este post.Mesmo, nao sendo uma materia minha é importante passamos isto adiante.Fique na paz e um feliz natal.

  • Ana Luiza Koehler disse:

    Olá Carlos,vou lá conferir esse post no teu blog, realmente é um assunto muito interessante a ser discutido entre nós autores.Gostaria de dizer que, ainda que a situação esteja difícil também no mercado franco-belga, as condições de produção e trabalho oferecidas lá são infinitamente melhores do que as que (não)temos aqui no Brasil, pois infelizmente aqui os quadrinhos ainda parecem ter seu modo de publicação tratado como se fosse igual ao da literatura, o que naturalmente não funciona. Ainda com a crise, o trabalho de um quadrinhista no mercado franco-belga é viável, enquanto que aqui no Brasil os editores aparentemente não querem assumir risco algum na produção do projeto. Há que se achar um caminho razoável para ambos os lados.Mas é isso, vamos continuar discutindo! Feliz Natal e um 2011 com sucesso e saúde!

  • Wagner disse:

    Interessante, li lá pelo ilustragrupo.Pra mim as pessoas sempre pintaram o mercado europeu de ouro e ele não lá essas coisas. Faz muito tempo que vejo autores em entrevistas falando que o mercado tá +/-, ou que nem tudo que é de lá é bom.Mas não sei o que vc acha disso, mas vejo que HQ vai pro limbo é se não parar essa birra que existe em relação ao mundo digital. O meio digital dá muitas novas possibilidades, pessoal tinha que ficar de olho nisso, estudar pra ver maneiras de transformar a produção mais viavel em termos de $$ e não tenta lutar contra.

  • Ana Luiza Koehler disse:

    Olá, Wagner! Pois é, nem lá tudo são flores, mas ainda assim as condições de publicação e produção deles são bem melhores do que aqui no Brasil. O problema é realmente a superprodução. Tudo que há em excesso acaba desvalorizando.Quanto ao mundo digital, te dou plena razão, e há mesmo um outro post que quero traduzir tratando sobre o assunto com uma visão muito positiva. Fala-se mesmo de mudanças significativas de contratos editoriais em função das novas tecnologias, e um ótimo artigo a ser lido é esta entrevista com o americano Mark Waid: http://www.comicsalliance.com/2010/12/20/mark-waid-digital-comics-interview-digital-december/

  • Wagner disse:

    Legal, vou esperar pelo prox post então :)Uma coisa que acho legal no caso de digital, é o feedback.Por exemplo, no Deviantart uma moça fez uma HQ montada num aplicativo em flash, muito bonita a HQ e disponibilizou pro pessoal traduzir. Um sucesso, é MUITO visto e tem em tudo quanto é lingua.Também acho um erro falar que não tem leitor novo e tal. Tirando a questão da pirataria de lado, se for olhar os numeros de downloads de scans é assustador de gigante! Nos Estados Unidos tem sites de scans que são verdadeiras editoras, até mais organizadas que as próprias editoras! É um negócio impressionante mesmo.Tem mangá lá que ninguem sonha de vir pro ocidente. Enfim, as editoras tinham que ficar atentas a isso, mas parece que elas não olha pra isso. É bem triste.

  • Ana Luiza Koehler disse:

    Sim, Wagner, estás coberto de razão. O meio digital é uma ferramenta quase ilimitada de difusão de obras, mas o modelo de negócio das editoras precisa mudar a fim de monetarizar isso e poder remunerar os produtores de produtos culturais (música, literatura, imagens, etc.). Num seminário sobre direitos autorais em novembro do ano passado, foi aventado por advogados especialistas que muitas das bandeiras demonizando o meio digital são levantadas não necessariamente pelos criadores das obras, mas pelos intermediários (editores, publicadores)que são os que perdem muito do seu lucro. Hoje o conteúdo se libertou de seu suporte (papel impresso, fita magnética, CDs, etc.) e se transformou em informação. Como ou se se deve controlar por onde a informação vai se difundir é a questão do nosso tempo.

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